Irmã Francisca é cidadã sergipana

Irmã Francisca é cidadã sergipana

 

A missionária belga Mathilda Antoniette Christine Hendriex, a Irmã Francisca, recebeu na noite desta segunda-feira, 11/06, na Assembleia Legislativa, o título de Cidadã Sergipana, a comenda mais elevada do parlamento estadual. Há 44 anos em Sergipe, sempre na luta em favor dos camponeses oprimidos, na defesa dos direitos humanos e por reforma agrária justa na região do Baixo São Francisco, Irmã Francisca expressou a alegria de agora ser uma cidadã do estado de Sergipe:

“Este título é de todos nós aqui”, disse, apontando para o plenário e para as galerias. “Porque foram vocês que fizeram de mim o que eu sou hoje. Agradeço por isso a Deus e a vocês todos”.

A solenidade foi prestigiada por parlamentares estaduais, pela presidente da Casa, deputada Angélica Guimarães, autoridades eclesiásticas, a exemplo de Dom Mario Rino Siviere, bispo da Diocese de Propriá; Padre Isaías, da Cáritas Diocesana de Propriá; lideranças políticas e camponesas; missionárias da congregação Irmãs da Caridade e, entre outras representações, por aqueles que mais estiveram ao lado da belga agora sergipana ao longo de sua vida: pessoas do Baixo São Francisco, que vieram em grande número, enchendo as galerias da Alese.

O projeto que concedeu o título à missionária católica foi de autoria da deputada Ana Lúcia, do PT. Visivelmente emocionada, a parlamentar fez um discurso retomando a bela história de Irmã Francisca desde que chegou ao Brasil e a Sergipe, em 1968, atendendo à convocação feita pelo então bispo da diocese de Propriá, Dom José Brandão de Castro.

Ana Lúcia lembrou das passagens da missionária por Japaratuba, Canhoba e depois Pacatuba, onde se identificou com o povo e acabou fixando raiz e se radicando. “Graças ao trabalho dela e de outros missionários, os trabalhadores pobres e marginalizados passaram a acreditar que uma outra sociedade era possível, bem como que era preciso pôr fim a séculos de escravidão a qual estava submetido o povo ribeirinho do Baixo São Francisco”, disse.

A deputada petista lembrou ainda dos difíceis tempos enfrentados por Irmã Francisca no final dos anos 70 e início dos anos 80, quando eclodiu um dos maiores conflitos de terra já registrados no Brasil, em Santana dos Frades, Sergipe. 

“A Irmã Francisca não vacilou mais uma vez, pois ela sempre esteve ao lado dos pobres e dos que sofrem, e passou a acompanhar a resistência daquelas famílias de posseiros, sem jamais temer jagunços, tocaias e agressões físicas”, rememorou. 

Ana Lúcia destacou, ainda, que na sua convivência com Irmã Francisca, mesmo em momentos difíceis, a exemplo do longo e complexo conflito dos posseiros de Lagoa Nova, e na última fase que envolveu atos arbitrários na Usina Santana, teve a oportunidade de testemunhar que a fé da missionária “sempre foi inquebrantável e a sua esperança, combustível que reanima a todos que com ela convivem e partilham dos mesmos sonhos”. 

“Conheci a Irmã Francisca sempre ao lado dos mais humildes, explorados e injustiças. Através dela eu me irmanei às lutas de Santana dos Frades e de Lagoa Nova. Por fidelidade à causa da justiça social e da crença de que é possível construirmos uma sociedade justa e igualitária, eu procurei me colocar a serviço das comunidades, das lideranças, dos religiosos, das religiosas e de todos que estão trabalhando para transformar a triste realidade a qual foi secularmente submetida a população empobrecida de Sergipe”, declarou a parlamentar petista.

Encerrando seu pronunciamento, Ana Lúcia declamou o poema “Credo da Ecologia Total”, do poeta catalão e bispo dos pobres Dom Pedro Calsadáliga.

Agradecimentos

Irmã Francisca agradeceu à deputada Ana Lúcia e a todos pelas presenças, e disse estar muito feliz com o título de sergipana, o qual dedicou a todos que sempre estiveram ao seu lado na luta em favor dos mais pobres, por justiça social e por reforma agrária.

“Vocês me oficializaram sergipana. Desde minha saída da Bélgica, vim com o desejo de ser brasileira, sergipana e pacatubense”, expressou a missionária.
 

Ao agradecer à deputada Ana Lúcia por seu envolvimento na defesa dos interesses dos trabalhadores, em especial dos rizicultores do baixo São Francisco, Irmã Francisca não perdeu a chance de mais uma vez se colocar a serviço dos mais necessitados. Da tribuna, aproveitou as autoridades presentes para cobrar mais moradias para os mais pobres, melhorias para o Assentamento Padre Nestor e o acampamento Arthur Bispo do Rosário, além de melhor funcionamento dos postos de saúde em Pacatuba.

A pequena missionária também aproveitou para pedir mais políticas públicas para a juventude, por quem mostrou grande preocupação. “O que é que nós vamos fazer para que a nossa juventude possa se incluir e se realizar na sociedade, e possam viver com dignidade? Precisamos pensar, unir forças e descobrir caminhos”, colocou.

irma3Encerrando a sua fala, a missionária belga e agora sergipana leu o poema “Vida”, de Charles Chaplin. “São palavrinhas que não são minhas, mas que expressam talvez parte do meu pensamento e da minha paixão”, afirmou Francisca.

Título merecido

Para o bispo da Diocese de Propriá, Dom Mario Rino Siviere, o título de cidadania à Irmã Francisca é mais que merecido, para alguém que deixou tudo do outro lado do mundo para se dedicar em Sergipe aos mais pobres.

“Ao longo de 44 anos, a sua presença aqui não foi só religiosa, mas de pés fincados no baixo São Francisco, Japaratuba, Pacatuba, por onde ela passou, com ações em favor dos mais pobres, por justiça social e por uma política mais séria, mais humana e menos corrupta”, destacou Dom Mario. 

O vereador Ninho do PT, assentado em Japoatã, ressaltou o papel da Irmã na formação do povo ribeirinho para o enfrentamento e a busca por terra para viver.

“Ela é pra gente não só um símbolo, mas uma figura presente e firme na luta, com o seu compromisso e opção pelos que mais necessitam, não só de ajuda espiritual, mas da força e da consciência para a luta por políticas públicas e pela posse e permanência na terra. Nós já tínhamos a Irmã Francisca como cidadã de Japoatã. Agora, ela é cidadã sergipana”, comemorou Ninho.

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